2/2/21

O Machismo na linguagem

 O MACHISMO NA LINGUAGEM

 Parábola Editorial  Francisco Jardes Nobre De Araújo  Segunda, 04 Mai 2020



Francisco Jardes Nobre de Araújo

Num mundo dominado por homens, a mulher é tratada como um ser diferenciado, que merece uma designação especial. Enquanto a expressão “o homem” pode equivaler a “o ser humano”, como na frase “O homem é mortal”, a expressão “a mulher” só se refere aos seres humanos do gênero feminino.  Ou seja, na mentalidade androcêntrica, o conceito de “homem” se confunde com o de “ser humano”, enquanto o de “mulher” não, e a primeira imagem de ser humano ou de qualquer outro animal que vem à cabeça é a de um espécime macho.

Desde as línguas mais antigas da grande família linguística indo-europeia, a mulher sempre recebeu uma denominação à parte, o que não aconteceria se ela fosse vista em pé de igualdade com os homens. O substantivo latino homo designava tanto o ser humano em geral, quanto o ser humano do sexo masculino, que também podia ser designado por vir (daí viril), enquanto o ser humano do sexo feminino era feminaHomo, em sua forma acusativa hominem, passou às línguas românicas ― homme (francês), home (galego, catalão), hombre (espanhol), uomo (italiano), om (romeno) etc. ― conservando a duplicidade semântica. Se a designação do ser humano do sexo masculino se faz por um termo pan-românico nas diferentes línguas românicas (embora a palavra romena om seja rara hoje com esse sentido), a do ser humano do sexo feminino se dá por substantivos de diversos étimos latinos: é femme em francês, donna em italiano, mujer em espanhol, mulher em português, femeie em romeno, dona em catalão etc.  O mesmo se dá nas línguas germânicas. O termo germânico para “homem” (mann) existe em todas as línguas da família (é Mann em alemão e em norueguês, mand em dinamarquês, man em inglês, sueco e holandês), mas essas línguas têm termos de origens diferentes para “mulher”: woman em inglês, Frau em alemão, kvinna em sueco etc.

Designar por meio de um substantivo feminino diferente do masculino a fêmea de uma espécie animal que tem importância na cultura de determinado povo é um procedimento comum na maioria dos idiomas do mundo. Nas línguas românicas, por exemplo, têm-se pares de substantivos de raízes diferentes para nomear macho e fêmea de espécies culturalmente importantes. Assim, em português, temos boi/vaca, bode/cabra, carneiro/ovelha, cavalo/égua etc. Já para as espécies em que a distinção entre machos e fêmeas não tem tanta importância, usam-se substantivos de mesma raiz, com alteração apenas no final da palavra (gato/gata, cachorro/cachorra, javali/javalina etc.) ou sem nenhuma alteração, como em cobra, girafa, tigre etc., nomes que designam tanto o macho, quanto a fêmea. Em inglês, a palavra para mulher é woman, que, etimologicamente, significa “homem mulher”, ou seja, “homem do sexo feminino” (de wif, “mulher”, + mann, “ser humano”). A propósito, a palavra wif do inglês antigo para designar a mulher era do gênero neutro, como também seu cognato alemão Weib, que atualmente adquiriu sentindo ofensivo, sendo substituído por Frau.

A língua também revela um tratamento diferenciado dado à mulher na sociedade ao conter designações específicas para ela, inexistentes para o homem. A mulher de um chefe de governo é chamada de “primeira-dama”, mas o marido de uma mulher que desempenha aquele cargo não é chamado de “primeiro-cavalheiro”. Do mesmo modo, a mulher de um embaixador é uma “embaixatriz”, mas o marido de uma embaixadora não é um embaixador. Essas designações dão a falsa impressão de valorização da mulher, quando, na verdade, sugere a ideia de que ela é propriedade do homem.

Conta-se que Cecília Meireles recusava a designação de “poetisa”, por achar que esse termo não tinha a mesma conotação de “poeta” (usado para os homens), ao contrário, soava como minorativo, ou mesmo pejorativo. Por outro lado, Dilma Roussef exigia que a tratassem por “presidenta”, em vez de “presidente”, para enfatizar que quem ocupava o cargo de chefe da nação brasileira era, depois de mais de um século de domínio masculino, finalmente uma mulher.

Em ambos os casos, percebe-se o peso que o substantivo com marca de gênero feminino tem para a representação da mulher na sociedade. Se a igualdade de gêneros fosse uma realidade, distinções como essas não fariam parte de nossas discussões. (...)


 Fonte: https://www.parabolablog.com.br/index.php/blogs/o-machismo-na-linguagem

22/1/21

 

Pegadinha gramatical

O professor Dílson Catarino explica:

"Eles pensaram que o Brasil era o Maranhão."


Qual a inadequação gramatical acima?

Esta frase está na capa de uma das principais revistas semanais de informação do país, publicada em 14 de abril de 2002. A inadequação gramatical presente a ela é a conjugação do verbo "ser" no tempo denominado pretérito imperfeito do indicativo (era), enquanto deveria estar conjugado no pretérito imperfeito do subjuntivo (fosse).

Vamos à explicação: há três modos de conjugação de verbos na Língua Portuguesa: indicativo, subjuntivo e imperativo.
O verbo estará no imperativo quando indicar ordem, pedido, conselho, súplica ou apelo, como nas frases seguintes: Venha até aqui! Traga-me este livro, por favor. Pense antes de falar. Não me machuque! Tenha piedade!
Estará no subjuntivo quando indicar desejo, hipótese ou dúvida, como nas seguintes frases: Espero que ele venha até aqui. Se ele se alimentasse melhor, certamente seria mais forte. Quando você vier aqui, iremos ao cinema.
Estará no indicativo quando indicar fato certo, fato que, com certeza, acontece, aconteceu, acontecia, aconteceria ou acontecerá, como nas seguintes frases: Ele veio aqui ontem. Se ele se alimentasse melhor, certamente seria mais forte. Quando você vier aqui, iremos ao cinema.

Os modos indicativo e subjuntivo são divididos em três tempos: presente, pretérito (passado) e futuro.

No modo indicativo, existem os seguintes tempos:

Presente do indicativo: fato que acontece com freqüência: Ele vem aqui com freqüência. Todos os dias, caminho seis quilômetros.

Pretérito perfeito: fato que aconteceu no passado e se estagnou: Ele veio aqui ontem. Conversei com Pedro sobre esse assunto.

Pretérito imperfeito: fato que acontecia com frequência no passado ou que ocorria ao mesmo tempo em que outro aconteceu: Ele vinha aqui todos os dias. Naquela época, o Brasil era menos violento. Enquanto o professor falava, o aluno saía sorrateiramente.

Futuro do presente: fato que acontecerá certamente: Amanhã, ele virá aqui. Quem será o futuro presidente? Quando você vier aqui, iremos ao cinema.

Futuro do pretérito: fato que aconteceria se outro não houvesse ocorrido antes: Ele viria aqui, se o pai não houvesse impedido. Se ele se alimentasse melhor, certamente seria mais forte.


No modo subjuntivo, existem os seguintes tempos:

Presente: desejo ocorrido no presente: Espero que ele venha aqui.

Pretérito imperfeito: hipótese, condição - neste tempo, a frase é iniciada pela conjunção se ou caso: Se ele se alimentasse melhor, certamente seria mais forte. Caso ele viesse aqui, encontraria Maria.

Futuro: dúvida futura - neste caso, a frase é iniciada pela conjunção se ou quando: Quando você vier aqui, iremos ao cinema. Se eles se prepararem, conseguirão o intento.

Obs: Existem outros usos dos tempos verbais além dos apresentados.

A frase apresentada pela revista indica uma hipótese, e não fato concreto. O verbo não deveria, portanto, estar conjugado no pretérito imperfeito do indicativo, e sim no pretérito imperfeito do subjuntivo, ficando assim estruturada:

"Eles pensaram que o Brasil fosse o Maranhão".

Dílson Catarino leciona gramática na 3ª série do ensino médio e no cursinho pré-vestibular do Colégio Maxi, em Londrina (PR). Também é gerente pedagógico e de editoração da Maxiprint, gráfica e editora, e palestrante do Sistema Maxi de Ensino. Veja outras dicas de gramática no site do professor.

16/9/18

Argentina celebra centenário do primeiro tango cantado


Argentina celebra centenário do primeiro tango cantado
'Mi noche triste', do pianista Samuel Castriota com os versos de Pascual Contursi e interpretada por Gardel, foi gravada em 9 de abril de 1917
EFE
18 Abril 2017 | 09h33
Membros da Academia Nacional do Tango se reuniram nesta segunda-feira, 17, para comemorar o centenário da gravação de Mi noche triste, canção interpretada por Carlos Gardel e considerada o primeiro tango cantado.
Em 9 de abril de 1917 foi gravada a canção do pianista Samuel Castriota com os versos escritos por Pascual Contursi e cantados por Gardel, lembrou à Agência Efe Alicia Contursi, neta do autor da letra da música.
Foi um momento "transcendental" na história do gênero porque Contursi dá um "giro" no tango ao criar letras com um argumento que se afastava da temática própria do momento, quando as melodias eram cantadas nos prostíbulos, e leva aos palcos dos teatros.
"Meu avô pega uma música já existente (Lita), acrescenta os versos e se atreve, em uma época completamente machista, a chorar por uma mulher, por um amor perdido e instaura essa temática, a do abandono", comentou Alice.
A descendente do célebre artista defendeu a vigência do tango e assegurou que se trata de um gênero que possui um valor histórico que deve sustentar-se ao longo do tempo.
Na opinião da neta de Contursi, o tango continua "em vigor" na dança e na música e, em sua opinião, atualmente há "muito bons " letristas no gênero, embora tenha ressaltado que "não têm o apoio popular que tinham naquela época".
Durante o ato na Academia Nacional do Tango, Contursi falou da figura de seu avô, que só pôde conhecer através de suas canções, enquanto acadêmicos da instituição se referiram ao artista de uma perspectiva histórica.
No próximo mês de setembro, a Academia Nacional do Tango desenvolverá um congresso sobre a "centralidade" do tango na cultura argentina e sua relação com outras expressões artísticas como o teatro, o cinema e todas as disciplinas que o tango "nutriu", explicou Roberto Luis Martínez, membro do conselho diretor da instituição.


Fonte: Estadão